quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Uma crônica de Cecília

Bem, eu me dei conta de que nunca havia postado nenhuma crônica de Cecília aqui no blog. Mas aí vai uma que eu achei muito interessante:


O FIM DO MUNDO - Cecília Meireles
A primeira vez que ouvi falar no fim do mundo, o mundo para mim não tinha nenhum sentido, ainda; de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim. Lembro-me, porém, vagamente, de umas mulheres nervosas que choravam, meio desgrenhadas, e aludiam a um cometa que andava pelo céu, responsável pelo acontecimento que elas tanto temiam.

Nada disso se entendia comigo: o mundo era delas, o cometa era para elas: nós, crianças, existíamos apenas para brincar com as flores da goiabeira e as cores do tapete.

Mas, uma noite, levantaram-me da cama, enrolada num lençol, e, estremunhada, levaram-me à janela para me apresentarem à força ao temível cometa. Aquilo que até então não me interessava nada, que nem vencia a preguiça dos meus olhos pareceu-me, de repente, maravilhoso. Era um pavão branco, pousado no ar, por cima dos telhados? Era uma noiva, que caminhava pela noite, sozinha, ao encontro da sua festa? Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol, estrelas. Por que as pessoas andavam tão apavoradas? A mim não me causava medo nenhum.

Ora, o cometa desapareceu, aqueles que choravam enxugaram os olhos, o mundo não se acabou, talvez eu tenha ficado um pouco triste - mas que importância tem a tristeza das crianças?

Passou-se muito tempo. Aprendi muitas coisas, entre as quais o suposto sentido do mundo. Não duvido de que o mundo tenha sentido. Deve ter mesmo muitos, inúmeros, pois em redor de mim as pessoas mais ilustres e sabedoras fazem cada coisa que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.

Dizem que o mundo termina em fevereiro próximo. Ninguém fala em cometa, e é pena, porque eu gostaria de tornar a ver um cometa, para verificar se a lembrança que conservo dessa imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono dos meus olhos naquela noite já muito antiga.

O mundo vai acabar, e certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido. Se valeu a pena que uns trabalhassem tanto e outros tão pouco. Por que fomos tão sinceros ou tão hipócritas, tão falsos e tão leais. Por que pensamos tanto em nós mesmos ou só nos outros. Por que fizemos voto de pobreza ou assaltamos os cofres públicos - além dos particulares. Por que mentimos tanto, com palavras tão judiciosas. Tudo isso saberemos e muito mais do que cabe enumerar numa crônica.

Se o fim do mundo for mesmo em fevereiro, convém pensarmos desde já se utilizamos este dom de viver da maneira mais digna.

Em muitos pontos da terra há pessoas, neste momento, pedindo a Deus - dono de todos os mundos - que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal. Há mesmo alguns místicos - segundo leio - que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
Enquanto isso, os planetas assumem os lugares que lhes competem, na ordem do universo, neste universo de enigmas a que estamos ligados e no qual por vezes nos arrogamos posições que não temos - insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total.

Ainda há uns dias a reflexão e o arrependimento: por que não os utilizaremos? Se o fim do mundo não for em fevereiro, todos teremos fim, em qualquer mês...


Essa crônica e essa imagem eu vi aqui. :)

Curiosidade: A assinatura de Cecília Meireles

Oi, gente!
Eu estava nuns blogs e me deparei com uma curiosidade muito interessante: a assinatura de Cecília. Eu, particularmente, nunca havia visto, mas deixo aqui a imagem pra vocês que tiverem essa mesma curiosidade de ver que eu tive:


Até mais :)

Brincando com os livros

Olá!
Vocês sabiam que Cecília já disse para a revista Manchete que, quando era criança e não sabia ler, brincava com os livros?
Confira a citação:

                                              "Quando eu ainda não sabia ler, brincava com livros,
e imaginava-os cheios de vozes, contando o mundo.
Sempre me foi muito fácil compor cantigas para os brinquedos;
e, desde a escola primária, fazia versos - o que não significa
dizer que escrevesse poesia"

Essa citação foi encontrada pela professora Margarida de Souza Neves, que publicou um artigo.

Isso quer dizer que a vocação e o talento de Cecília já eram notáveis desde quando ela era criança, mesmo sem saber ler.

É isso. Até o próximo post :)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cecília Meireles declamando sua poesia "Retrato"

Deixo aqui para vocês um vídeo de Cecília Meireles declamando sua poesia "Retrato":

(Fonte: Youtube)

Espero que gostem! Boa noite ;)

Um pouco mais sobre a vida de Cecília Meireles

Quando começou a escrever, o auge da literatura era o modernismo, mas, apesar disso, Cecília foi fortemente influenciada pelo simbolismo.

Em 1992, Cecília casou-se com o pintor Fernando Correia Dias e teve três filhas. Fernando sofria de depressão, então suicidou-se em 1935. Em 1940, Cecília voltou a casar-se, dessa vez com o professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinicius da Silveira

Devido ao seu interesse pela educação e sua formação como professora, Cecília fundou a Biblioteca Infantil do Rio de Janeiro. Em função disso, ela escreveu várias obras que enriqueceram a literatura infantil. Essas obras eram marcadas pela musicalidade.

Além de poetisa, Cecília foi jornalista, cronista (fazia crônicas críticas sobre educação e política, principalmente), educadora (formada em pedagogia) e pintura

Cecília manteve-se lúcida e trabalhando até poucos dias antes de morrer. Ela faleceu no dia 9 de novembro de 1964, no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Ela pediu que seu túmulo fosse simples:  apenas sua assinatura e as datas de nascimento e morte em bronze na lápide.

Cecília foi, mas deixou sua herança de grande profissional e mulher. Com seu talento e vocação, conquistou inúmeros prêmios, dentre eles: Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Solombra (1964) e Prêmio Machado de Assis" pelo conjunto da obra (1965). Como tradutora, recebeu o Prêmio de Tradução de Obras Teatrais (1962) e o Prêmio Jabuti de Tradução de Obra Literária pelo livro Poesia de Israel (1963).


Aqui você pode encontrar toda a cronologia de Cecília Meireles.


É isso. Cecília foi um exemplo e uma marca para a história literária do nosso país. Espero que vocês tenham curtido o post e tenham aprendido mais sobre sua vida.
Até mais ;)

Qualidades do Professor


Oi, gente!

Como vocês sabem, Cecília tinha muitas vocações. Dentre essas vocações, ela era professora, por isso deixo aqui pra vocês um texto maravilhoso dela sobre essa profissão digna que é ser professor. Vale a pena ler! 
Espero que gostem :)


QUALIDADES DO PROFESSOR - Cecília Meireles
"Se há uma criatura que tenha necessidade de formar e manter constantemente firme uma personalidade segura e complexa, essa é o professor.
Destinado a pôr-se em contato com a infância e a adolescência, nas suas mais várias e incoerentes modalidades, tendo de compreender as inquietações da criança e do jovem, para bem os orientar e satisfazer sua vida, deve ser também um contínuo aperfeiçoamento, uma concentração permanente de energias que sirvam de base e assegurem a sua possibilidade, variando sobre si mesmo, chegar a apreender cada fenômeno circunstante, conciliando todos os desacordos aparentes, todas as variações humanas nessa visão total indispensável aos educadores.
É, certamente, uma grande obra chegar a consolidar-se numa personalidade assim. Ser ao mesmo tempo um resultado — como todos somos — da época, do meio, da família, com características próprias, enérgicas, pessoais, e poder ser o que é cada aluno, descer à sua alma, feita de mil complexidades, também, para se poder pôr em contato com ela, e estimular-lhe o poder vital e a capacidade de evolução.
E ter o coração para se emocionar diante de cada temperamento.
 E ter imaginação para sugerir.
E ter conhecimentos para enriquecer os caminhos transitados.
E saber ir e vir em redor desse mistério que existe em cada criatura, fornecendo-lhe cores luminosas para se definir, vibratilidades ardentes para se manifestar, força profunda para se erguer até o máximo, sem vacilações nem perigos. Saber ser poeta para inspirar. Quando a mocidade procura um rumo para a sua vida, leva consigo, no mais íntimo do peito, um exemplo guardado, que lhe serve de ideal.
Quantas vezes, entre esse ideal e o professor, se abrem enormes precipícios, de onde se originam os mais tristes desenganos e as dúvidas mais dolorosas!
Como seria admirável se o professor pudesse ser tão perfeito que constituísse, ele mesmo, o exemplo amado de seus alunos!
E, depois de ter vivido diante dos seus olhos, dirigindo uma classe, pudesse morar para sempre na sua vida, orientando-a e fortalecendo-a com a inesgotável fecundidade da sua recordação."


(Texto extraído do livro Crônicas de Educação 3)


(Fonte: Blog Palavras Rabiscadas)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Boa Noite!

"O segredo do sucesso não é fazer o que se gosta, mas sim gostar do que se faz."
Cecília Meireles

Com esse trecho de Cecília, desejo a todos uma boa noite ;)

Uma poesia de Cecília Meireles


Olá ;)

Deixo pra vocês uma das maravilhosas obras de Cecília como poetisa que eu, particularmente, gosto muito. Espero que gostem!


TIMIDEZ - Cecília Meireles

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caídadas montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

e um dia me acabarei.

domingo, 28 de agosto de 2011

Bibliografia e outros trabalhos

Esse post é especialmente para que vocês conheçam os trabalhos de Cecília Meireles. Espero que gostem!

Bibliografia:
Espectro, 1919
Criança, meu amor, 1923
Nunca mais... e Poemas dos Poemas, 1923
Criança meu amor..., 1924
Baladas para El-Rei, 1925
O Espírito Vitorioso, 1929
Saudação à menina de Portugal, 1930
Batuque, Samba e Macumba, 1935
A Festa das Letras, 1937
Viagem, 1939
Vaga Música, 1942
Mar Absoluto, 1945
Rute e Alberto, 1945
Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1949 (biografia de Rui Barbosa para crianças)
Retrato Natural, 1949
Problemas de Literatura Infantil, 1950
Amor em Leonoreta, 1952
Doze Noturnos de Holanda & O Aeronauta, 1952
Romanceiro da Inconfidência, 1953
Batuque, 1953
Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955
Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955
Panorama Folclórico de Açores, 1955
Canções, 1956
Giroflê, Giroflá, 1956
Romance de Santa Cecília, 1957
A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957
A Rosa, 1957
Obra Poética,1958
Metal Rosicler, 1960
Poemas Escritos na Índia, 1961
Poemas de Israel, 1963
Antologia Poética, 1963
Solombra, 1963
Ou Isto ou Aquilo, 1964
Escolha o Seu Sonho, 1964
Crônica Trovada da Cidade de Sam Sebastiam no Quarto Centenário da sua Fundação Pelo Capitam-Mor Estácio de Saa, 1965
O Menino Atrasado, 1966
Poésie (versão para o francês de Gisele Slensinger Tydel), 1967
Antologia Poética, 1968
Poemas italianos, 1968
Poesias (Ou isto ou aquilo & inéditos), 1969
Flor de Poemas, 1972
Poesias completas, 1973
Elegias, 1974
Flores e Canções, 1979
Poesia Completa, 1994
Obra em Prosa - 6 Volumes - Rio de Janeiro, 1998
Canção da Tarde no Campo, 2001
Episódio humano, 2007

Outros Textos:
1947 - Estréia "Auto do Menino Atrasado", direção de Olga Obry e Martim Gonçalves. música de Luis Cosme; marionetes, fantoches e sombras feitos pelos alunos do curso de teatro de bonecos.

1956/1964 - Gravação de poemas por Margarida Lopes de Almeida, Jograis de São Paulo e pela autora (Rio de Janeiro - Brasil)

1965 - Gravação de poemas pelo professor Cassiano Nunes (New York - USA).

1972 - Lançamento do filme "Os inconfidentes", direção de Joaquim Pedro de Andrade, argumento baseado em trechos de "O Romanceiro da Inconfidência".

Teatro:
1947 - O jardim
1947 - Ás de ouros
Observação: "O vestido de plumas"; "As sombras do Rio"; "Espelho da ilusão"; "A dama de Iguchi" (texto inspirado no teatro Nô, arte tipicamente japonesa), e "O jogo das sombras" constam como sendo da biografada, mas não são conhecidas.

sábado, 27 de agosto de 2011

Conhecendo Cecília Meireles




Cecília Benevides de Carvalho Meireles
foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. Ela é considerada uma das vozes líricas mais importantes da literatura brasileira. Seu primeiro livro, Espectro, um conjunto de sonetos simbolistas foi publicado quando ela tinha dezoito anos. Suas poesias eram tão originais que eram consideradas como atemporais.

Cecília era órfã de pai e mãe, por isso foi criada por sua avó portuguesa. Já aos nove anos de idade começou a fazer poesias. Como professora, estudou línguas, literatura, música, folclore e teoria educacional. Ela também teve uma importante atuação como jornalista, pois ela publicava sobre problemas na educação, área à qual se manteve ligada, fundando, em 1934, a primeira biblioteca infantil no Brasil. Em 1939, publicou Viagem, livro com o qual ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Faleceu 09 de novembro de 1964, aos sessenta e três anos, deixando suas obras como lembrança de sua grandeza como poetisa.